Acredito que essa seja a pergunta que mais ouço no meu consultório e por isso gostaria de destrinchá-la com vocês.
Primeiramente, vamos conceituar o que caracteriza a dependência. Segundo a OMS, a síndrome de dependência envolve um forte desejo de consumir uma substância, a dificuldade em controlar seu uso, usá-la de forma persistente apesar de consequências nocivas e dar maior prioridade dada ao uso em detrimento de outras atividades. Já o DSM-5, um importante guia de classificação dos transtornos mentais, não utiliza o termo “dependência” e sim “Transtorno por uso de substância”. Nele, são descritos 4 domínios de sintomas: controle prejudicado do uso, comprometimento social/abandono de atividades, uso em situações de risco e apesar dos problemas físicos/psicológicos e presença de aspectos farmacológicos como tolerância e abstinência.
Dado tal contexto, podemos perceber que o termo dependência nos lembra muito mais o uso de substâncias como álcool, cigarro ou cocaína do que o uso de medicamentos para tratamento de transtornos psiquiátricos. A verdade é que, dentre esses medicamentos, apenas uma pequena parcela é capaz de causar dependência. No caso dos antidepressivos e estabilizadores de humor, sabemos que nenhum é capaz de desenvolver tolerância (necessidade de doses cada vez maiores para atingir um mesmo efeito) ou abstinência (sintomas físicos e/ou psicológicos que surgem quando uma pessoa para de usar uma substância da qual já se tornou dependente). Já os benzodiazepínicos (clonazepam, diazepam etc), as drogas Z (zolpidem, zopiclona etc) e os psicoestimulantes (muito usados no tratamento do TDAH) podem levar ao desfecho da dependência.
E por que a descontinuação de algumas medicações podem tirar qualidade de vida de um paciente? Pelo mesmo motivo que a retirada de um anti-hipertensivo pode descontrolar a pressão arterial de um paciente hipertenso ou a interrupção do uso de insulina pode causar problemas para um paciente diabético que já necessita da mesma de forma regular. O pensamento central quando falamos disso é entender que um transtorno mental merece tanta atenção quanto os “adoecimentos físicos” como hipertensão, diabetes, colesterol alto, hipotireoidismo.
Muitos pacientes raciocinam assim
- “Comecei o remédio e melhorei.”
- “Parei o remédio e piorei.”
- “Logo, fiquei dependente dele.”
Na realidade, esse raciocínio não significa dependência, mas sim que o medicamento estava cumprindo o seu papel de tratamento de uma condição clínica.
Infelizmente, devido ao estigma, tornou-se comum acreditar que o adoecimento mental é causado por fraqueza, falta de vontade, preguiça etc. Contudo, atualmente sabemos que os transtornos mentais possuem mecanismos fisiopatológicos que guiam a terapia farmacológica cada vez com maior precisão.
Portanto, convido vocês a pensarem que o ponto-chave é que melhorar com a medicação e piorar sem ela não é dependência, mas sim a prova de que aquele tratamento está funcionando, assim como ocorre com tantas outras condições médicas.
Esse mito da dependência pode gerar culpa ou vergonha injustificada, levando muitas pessoas a evitar o tratamento adequado. O paciente pode pensar: “Se eu não consigo ficar sem, é porque fiquei fraco ou dependente.” Quando, na verdade, o que acontece é: “Com o tratamento, tenho mais qualidade de vida e menos sofrimento. Sem ele, a doença reaparece.”
Por fim, ressalto que nem todos os pacientes necessitam de manter uma medicação para sempre. O foco inicial do tratamento, na maior parte dos casos, é instaurar um tratamento momentâneo e, após um tempo seguro, realizar a tentativa de retirada.